Assim caminha a comunidade Patrícia tem 15 anos e anda açodada, correndo atrás de tecidos para fazer um vestido estilo indiano, igual ao da atriz da novela. Ela admite que adora novelas e que não entende por que perdem tempo passando aquelas coisas chatas na televisão como documentários e telejornais. Ela abaixa o som que toca uma música sertaneja e diz que também ama pop rock nacional. Segundo ela, bastava que houvesse os programas vespertinos, aqueles que fazem fofocas das celebridades, o Big Brother, suas novelas e pronto: a televisão já seria ótima. Vai muito mal na escola, que acha outra chatice, com aqueles professores que só "enchem" o tempo todo. Por ela, passaria o tempo inteiro no shopping com as amigas, mas seu pai nunca dá dinheiro suficiente, aliás ela não entende por que seu pai nunca tem dinheiro, vive se queixando da vida... coisa chata, meu Deus! Seu pai, que passa o domingo inteiro no boteco da rua jogando sinuca, escutando o jogo do Corinthians e bebendo cerveja, quase não sabe ler, pois nunca se interessou pelas letras quando adolescente, o negócio dele era caçar passarinho e jogar bola no morro perto de sua casa. De vez em quando, roubava umas roupas nos varais da vizinhança para comprar coisinhas como chinelos de dedo e trouxinhas de maconha. Não costuma bater na mulher, só quando ela reclama demais de suas bebedeiras, aí, como ele costuma dizer, não tem cristão que aguente. A mulher é analfabeta, fuma três carteiras de cigarros por dia e não liga de lavar tanta roupa, o que mais a incomoda é ter de fazer a janta bem na hora da novela das oito. Quase não dá pra entender o que estão dizendo, ainda mais porque ela quase não entende nada do que essa gente de televisão fala, e, como diz, - É por isso que eu gostava do programa do "ratinho", ele fala de um jeito que a gente entende tudo!" Seu Severino, pai da Patrícia, ensinou a mulher a votar nos candidatos que ele escolhe. Ele já tem mais de 60 anos e não consegue mais trabalho. Vive de "bicos" há mais de dois anos. Mal consegue caminhar, pois tem problemas sérios de circulação nas pernas que vivem inchadas, além do problema do fígado e do diabetes. Não se trata porque desistiu de ficar seis ou sete horas na fila do posto médico e receber uma senha para comparecer 15 dias depois para se consultar com um médico que nunca aparece para trabalhar, mas tem fé em que o atual governo vai "dar um jeito nas coisas". Dona Maricota, mulher do seu Severino, mãe da Patrícia, também anda com a saúde frágil, anda com a "vista fraca" e tossindo muito depois de fumar. Diz que tem medo que seja "doença ruim" dos pulmões. Patrícia, alheia ao que ocorre com os velhos, segue sua rotina alucinada por novidades. Arrumou um "paquerinha" que dizem ser bom de bola, mas ela não sabe se é verdade, afinal não entende nada de futebol. Só sabe que se ele "virar jogador" ela vai comprar tudo o que sonhou, e nem vai se importar se ele viver "enrolado com a mulherada". Dizem - mas ela não acredita - que ele anda com más companhias e que já tem ficha na polícia por roubo e tráfico de drogas. Patrícia já andou levando uns safanões desse namorado quando este chegou bêbado de uma "pelada". Ultimamente ela deu para fumar, e tem lavado as roupas do novo namorado, que foi expulso de casa por estar desempregado há dois anos. Apesar de andarem discutindo muito porque o cara só quer saber de escutar os jogos do Corínthians e jogar sinuca, eles vão casar mês que vem. Patrícia às vezes tem tossido muito por causa de seu novo hábito de fumar, e diz que o namorado, apesar de tudo, é muito legal: ele até já foi com ela votar. Ele ensinou direitinho como fazer, e até ensinou a ela que o candidato bom era aquele no qual ele iria votar. Eles têm fé de que o atual governo vai "dar um jeito nas coisas".
Escrito por wilson às 18h36
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|